domingo, abril 05, 2015

À vida

Lembre-me de acreditar que há um tempo em que é preciso cessar esforços, retirar a tropa.
Um tempo em que o silêncio é bem vindo e que muitas palavras, por mais bem explicadas que sejam, se tornam nada. Caem em desuso.
Me lembre de acreditar no que eu já fiz, no que um dia deu certo. Atitudes que me definiam e me faziam forte.

Não me deixe acreditar que eu sei e que não devo mudar. Nem tampouco me enfiar de cabeça em minhas verdades.
Faça-me sempre questionar quem eu sou e o que tenho de melhor, mesmo que seja a tarefa mais difícil.
Coloque-me frente ao espelho, com grande frequência, pois ele sempre me devolve a imagem do que quero e do que não quero ser. Mantenha-me crítica de mim.

Lembre-me de acreditar no meu sorriso e no quanto ele faz bem a outras pessoas. Mas não me deixe ser leviana, ao julgá-lo como indispensável a alguém, exceto a mim. Por isso, faça com que eu renove os motivos que me causam o riso.
Coloque-me em minha condição humana, sempre que eu achar a dor desnecessária. Relembre-me que ela é passageira, mesmo que tenha se hospedado.

Permita-me acreditar que eu estava errada. Que não fiz boas escolhas e que, assim, eu possa começar novamente. E de cabeça erguida, quantas vezes forem necessárias. 
Mas não me deixe faltar com a defesa do que acredito, mesmo que ao final, eu perceba a grande tolice.
Permita-me ser corajosa e confiante, alertando-me sobre o limite que a sabedoria propõe.

Dai-me o tombo necessário e a força para levantar. Ajude-me a curar feridas e suturar cortes profundos. Mas não me deixe ser pivô de minhas dores. 
Refaça minha rota quando perdida e me dê chances de trilhar novos caminhos. 

Não me beneficie mais que outros, mas me ajude a beneficiar os outros com minhas conquistas. Me lembre de não deixar de lado o exercício da tolerância e o bom senso do perdão. Mas não me deixe ser tola, mais que o necessário. 

Bata em minhas costas para impulsionar meu passo ou mostrar-me que deixe algo pra trás. Não permita receber tapas levianos ou traiçoeiros, pois mesmo que leves, são devastadores. Mas se receber, lembre-me de bons motivos para não revidar. Permita-me achar que conheço o outro o suficiente para amá-lo. E não me deixe aceitar outras relações que não baseadas no amor.

Dai-me o sopro necessário para levantar meus cabelos. E  as lentes necessárias quando na visão turva.
Ofereça-me a possibilidade do amanhecer e a coragem de levantar. Sempre que possível refresque minha memória ao mostrar-me que sou a dona de meus passos, mas não me deixe esquecer quem me ensinou a andar.

Cobre-me agradecimentos, mesmo que não pareçam necessários.
E perdoe a ousadia ao dizer-lhe o que fazer.




sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Uma vez mais


Eu venho há dias procurando algo que não sei bem o que é. Tenho tentado encontrar algo que não sei bem onde procurar. Me parece não ser algo tangível, mas, mesmo assim ainda não sei como definir. É como se eu o tivesse perdido em algum momento de desatino ou apenas numa distração. Também não excluo a hipótese de nunca tê-lo possuído. E em meio a esta busca dolorosa, ousei muitas tentativas de decifrá-la.
Hoje, mais uma vez, me ocorreu uma palavra que vem me martelando há bastante tempo. Mas somente agora pude sentir o quanto ela corresponde às minhas tentativas em vão. Sintonia. Simples e doce como poderia ser. Venho, incessantemente, buscando recobrar minha sintonia. Comigo, do meu sorrir, do meu pensar e do meu agir.
Houve algum tempo em que ela se perdeu. Não que eu tivesse sido negligente, mas apenas deixei-me transbordar do novo. Deixei-me ser invadida pelo agora, pelo que vinha de fora, mas que produzia benfeitorias em mim. Tudo foi acelerado como um furacão. E imponente como somente ele poderia ser. Escapou-me o momento de digestão, de integração. Aconteceu.
Aconteceram!
E agora permito-me recuperar os passos perdidos, tentando peneirar a areia que já escoou. E apesar da enorme latência, acredito que pouco ainda pode ser recuperado. Com menos intensidade, é claro. Mas ei de tentar, de uma forma ainda desconhecida. E quem sabe sintonizar com minhas faces, meus vieses, minhas dúvidas e meus medos (os superados e os mantidos), misturados às minhas alegrias, minhas conquistas, às novas condições e aos meus segredos (que já não são tão segredos assim).
Eu sigo.
Eu tento, novamente. 
Uma vez mais.


Resquícios

  Eu não poderia imaginar o quão fraca eu seria, se não me deparasse novamente com a respiração tão cautelosa e com os olhos tao marejados. Supus que seria mais fácil, mas me enganei completamente. E de toda a minha teimosia, talvez, pra mim, esteja claro o porquê de eu não aceitar todo este descompasso. Um breve retrospectiva me encheu o coração de tanto amor, que eu, por um instante, não soube o que fazer. E eu ainda não sei, é verdade. Neste momento, só me vem à mente uma canção e ecoa tão repetidamente que parece me embriagar: "Estranho seria se eu não me apaixonasse por você.". E seria tão estranho, tão estranho, que me parece pouco provável.
     Este é, sem dúvidas, um dos roteiros que me encantaria se me sentasse para assistir. É uma história de amor perfeita, que tem todo o encanto que me apetece. E que, de fato, me apeteceu na vida real. Uma conexão que se iniciou antes de eu imaginar os desdobramentos. Um encanto que simplesmente era traduzido nas batidas de meu coração e no suor frio de minhas mãos. Me preocupei contigo antes mesmo de lhe conhecer e quis cuidá-lo antes que me pedisse. Não me importei em achar meios para lhe ter por perto, tampouco ponderei a insanidade de minhas iniciativas. O encontro perfeito de duas "almas" que saberiam fazer-se feliz dali pra frente.
    Relembrar tudo isso, hoje, me faz entender o quanto minhas tentativas de esquecer foram falhas. Cada movimento do meu dia promoveu uma lembrança tão intensa, que eu pude sentir todas aquelas sensações novamente, mas com um diferencial: você não estava lá. Você não estava lá, nem está aqui agora, a não ser em minha lembrança e em meu coração. E até hoje eu não entendo bem o porquê. E o não entender me é a pior das realidades, pois poucas das coisas que não entendo eu aceito. E, esta realidade é, sem dúvidas, uma das condições que tenho pouca ciência.
   Não entendo por que seu olhar ficou distante - e isso eu notei nesta noite, ao olhar algumas fotografias. Pouco compreendo os motivos de seu sorriso não ser mais intenso ao meu lado - visível, a mim, também no álbum de fotos. Me parece piegas demais dizer que todos os romances que tenho visto me fazem lembrar de você. Talvez pela infinidade de conexões que tivemos, de modo que nossa história poderia ter sido escrita de qualquer maneira, algum ponto nos ligaria. 
     Me parece muito dizer que é em você que penso quando quero falar, e que sinto você até mesmo onde não há uma ligação qualquer. Mas hoje, diferentemente de outras situações, eu senti que te amo tanto que odeio a ideia de ter que abandonar este amor, pois seria como desligar uma parte de mim. Não, você não entendeu errado. Eu odeio ter que tirar tudo isto de mim, me é como dar à luz a uma criança e ter que me separar dela. Fazer isso, seria como engavetar um monte de coisas incríveis; e coisas incríveis não devem ser engavetadas.
     Hoje, infelizmente, eu notei o quanto sorrio menos e o quão irritante eu voltei a ser. Era o amor que me faltava, e aí está mais uma grande explicação para a dor de sua ausência. Novamente me peguei chorando no escuro, lágrimas que nem dou conta, produzidas por uma saudade do que já foi, mas com uma grande parcela do que não pode acontecer. Mais uma vez eu divaguei nos sonhos acordados e imaginei o quanto tudo era bom e o quanto tudo poderia dar certo. Mas será que poderia mesmo? Tenho medo de que esta dor me acompanhe mais do que deveria me acompanhar e que a incerteza seja sempre a causadora dela, reticentemente.
      "Amar sem ver, se vai doer..",  e dói, bem doído. Daquelas dores que estão sempre ali presente, doendo mais em algumas ocasiões, mas sempre ali, relembrando que existiu algo ou alguém. Parece que apostei alto num jogo de azar e perdi, me restando nada. "Agora já nem sei mais onde vai parar..", nem sei como fazer para impedir que continue. Mas "Vou digerindo a agonia que tudo passa no final", não é assim que dizem, por aí, como num conformismo barato? "E isso, eu pergunto a você, que aparece toda vez bagunçando a minha ideia, nas menores distrações, dentro de um jogo da velha.". Me responda, por favor. Imagino que não saiba, é claro! E quantas das coisas você não sabe mais? Não importa. Apenas me intriga entender como desaprendeu.
    Ao escrever posso sentir as batidas destas músicas, não somente por elas estarem em meus ouvidos, mas sinto-as como se verdadeiramente você estivesse junto para apreciá-las. Pulsando comigo em cada acorde e voltando sua face à minha como numa correspondência imensa de palavras, de gestos e de sensações. É evidente a falta que me faz. E como! Já tiveram dias em que odiei o dia em que me aproximei de você, e odiei ainda mais o momento em que aceitei dar sequência a tudo que sentíamos. Repulsei o dia em que de seus lábios ouvi "Eu te Amo", como se esta tivesse sido a maior mentira de toda a minha existência. Odiei cada sorriso verdadeiro que me proporcionou e toda a confiança que me fez sentir. Mas o ódio não persistiu.
      Amor não é o mesmo sem ter quem se ama. Ele fica pequeno, bem miudinho. E isso deveria ser proibido. Amor tem que ser bom, sem fazer o mal. Tem que ser grande. Amor tem que ser pleno, sem causar desequilíbrios. Amor tem que ser amado, pura e simplesmente.
     Desejo que estas sejam as últimas linhas sobre esta dor e que minhas entrelinhas queiram dizer outra coisa. Desejo que, como as águas, este amor escoe e se transforme. Que percorra outras margens e mude seu trajeto. Desejo que eu acredite que tudo pode ser novamente, de outra forma, com outro olhar. E que mais tarde eu continue acreditando no amor, que apesar de viciante, pode ser libertador.
       Hoje, eu ainda amo, um amor velado apenas por mm.
       Hoje, eu ainda amo, mas quero, a cada dia, deixar de amar.


domingo, janeiro 11, 2015

Sorriso devastador

"Não se arrependa de nada que lhe fizera sorrir." Esta foi uma das frases com que me deparei nestes dias, não me lembro ao certo em qual ocasião e nem tenho ideia quem a escreveu. No entanto, me lembro exatamente da sensação que tive ao lê-la: simplesmente concordei e senti que meu coração fizera o mesmo, ritmando acelerado. Foi uma sensação dúbia, de identificação e conforto, mas também de embaraço e confusão.
Não havia escolha, tive que me aliar àquela verdade transcrita, pois ali estava uma pequena parte de minha inexistente sabedoria. Sem dúvidas aquela era uma de minhas grandes colisões. Meu concordar foi, seguramente, produto da minha identificação. Concordei porque, de alguma forma, sempre fora o que eu acreditei.
Nenhum sorriso deve ser desperdiçado, tampouco esquecido, quem dirá negado. Se eles existiram, de alguma forma foram bons, únicos e intensos. Penso que, talvez, pouco justificaria um arrependimento. No entanto, este pouco existe e vivemos tentando esquecer o que nos fez realmente feliz. Em paralelo, devo confessar um de meus grandes receios; traduzir enfim, uma de minhas ocorrências humanas: tenho receio de todos que me fazem sorrir um sorriso verdadeiro.
E, por mais insana que pareça esta proposição, eu permaneço amedrontada. Um medo que, muito provavelmente você tenha ou, quem sabe, já sentira na vida. Assemelha-se à insegurança, talvez esteja em uma mesma classe de respostas. A verdade é que eu tenho medo daqueles que me fazem sorrir e que me arrancam gargalhas doídas. E com isso, passam a conhecer o que eu chamo de felicidade. Tenho medo daqueles que me conhecem cruamente, que já me fizeram chorar de felicidade e sabem, exatamente, como elevar meu humor. Sinto receio daquelas pessoas com quem eu posso ser eu mesma, sem economizar, sem tirar e nem pôr. Apenas ser. Amedrontam-me aqueles que me fitam os olhos até que eu desista e abra um sorriso. Causam-me tremor aqueles que conhecem o som de minha risada e, mesmo assim, permitem que eu gargalhe.
E como num piscar de olhos, fica claro, nestas linhas, que tenho medo da felicidade, do que me causa boas sensações. Será mesmo? Esta colocação me parece mórbida demais e também pouco assertiva! Tendo a ir mais fundo e descubro que são tantos medos mínimos que se tornam grandes quando sobrepostos. E aí sim assustam, verdadeiramente.
Mas como pode o sorriso causar tantas sensações desgostosas, se é ele o anunciador de boas novas, o presságio da felicidade e a coroação do êxtase? A resposta é a mesma afirmação com que proponho a pergunta. Os sorrisos me amedrontam pura e simplesmente por serem tão cheios de si, por produzirem tão boa devastação.
Sendo assim...
Resta-me apenas confessar: amedronto-me porque, humildemente, tenho pavor de perder quem me faz sorrir!
        Não se vá.

domingo, dezembro 21, 2014

Metáfora aliviadora

 Esta imagem representa, muito bem, uma metáfora que ouvi há algum tempo em que, num paralelo, as contingências da vida foram comparadas a uma roda gigante. E é a respeito desta metáfora que pretendo falar agora.
Todos nós, em algum momento, experimentamos a agonia do que "querer mudar e não conseguir". Exceto as vezes em que não sabemos como nos comportar de forma diferente, em algumas situações, temos clareza sobre o quanto pode ser benéfico outro tipo de relação com determinada realidade. Chegamos a saber como podemos nos comportar e o que temos que fazer para evitar a repetição. Mas não fazemos.
E, eu sei bem, estas situações produzem uma agonia danada em nós. Nos amedronta e, de certa forma, faz com que nos decepcionemos com nós mesmos. Mas por que será que isso acontece?
Foge à regra e desafia nossas forças! Sabemos o que não devemos fazer. Elencamos diversas opções diferentes para que nos comportemos de outra forma e, mesmo assim, ainda voltamos a nos relacionar como não gostaríamos. Estranho não?!
Talvez.
Na ocasião, eu caminhava com estes mesmos questionamentos que propus. E, sem saber que seria aliviador às minhas dúvidas, alguém contou uma metáfora que muito significou. O fato é que, por mais que saibamos, muitas vezes, o que devemos fazer, algumas relações com nosso ambiente são extremamente reforçadoras (por diversas razões, que não convêm agora) e, nos mantém emitindo respostas que nos permitem acesso à estas sensações de prazer. Até aqui nada muito diferente.
No entanto, ocorre que nossos outros comportamentos não são selecionados dado o ambiente em que estamos inseridos. Em algumas situações, é preciso que o ambiente mude, que novas contingências vigorem a fim de que outros comportamentos sejam selecionados. Em outras palavras, é preciso que a roda gigante mude sua posição, que ela gire, simplesmente. Para que, assim, os comportamentos alternativos que nos parecem viáveis, sejam possivelmente reforçados.
Não sei se me fiz clara. Também não quero justificar, com esta proposição, todas as mudanças frustradas que tentamos ao longo da vida (aquelas que pouco empenhamos energia ou que pouco queremos mudar). Quero dizer que, em algumas ocasiões, é preciso esperar, pura e simplesmente.
Mas esperar de forma diferenciada.
Esperar como quem anseia por uma oportunidade de mudança. E quando esta aparecer, não deixar de aproveitar. Para isso, é preciso estar atento e, em certa medida, saber como aproveitar da ocasião para emitir outras respostas - aquelas que anteriormente não conseguia emitir.
É preciso que a roda gire. É preciso aproveitar de seu movimento.
Hoje, com esta proposição, sinto mais esperança na mudança que desejo. Hoje eu sei que, nem tudo depende de mim.
Eu quero que a roda gire e, de outra latitude, quero poder olhar.
Pra mim, soa perfeito: a vida assemelha-se a uma roda gigante.




Foto: Daniel Reis

sábado, novembro 01, 2014

De agora

Como agregar tantas linhas mal escritas?
As frases não se combinam e este texto parece não acabar. Um início charmoso, com indícios de boas exclamações. Engano seu. Engano meu. Engano nosso. As sílabas se estatelaram pelo caminho, perderam-se num acaso.
Estranheza, medo e dor. Solidão. Colisões repetidas, lágrimas condensadas. Uma verdade escorregadia e uma vida marcada. O excesso faz-me escrever assim, mas justifico-me pelo penar. Penar pelas escolhas que me embriagam de tristeza. Penar pelo pouco que resta ou pelo muito oculto. Penar pela troca do prazer pelo vazio. Penar pela dessintonia.
De quem?
De mim.

segunda-feira, julho 28, 2014

Hoje eu...


Hoje eu acordei e bateu uma grande preguiça. Preguiça da efemeridade. Do vai e vem. Do não ficar.
Acordei com preguiça de começar tudo de novo. De ver pessoas chegar e pessoas sair.
Hoje eu acordei com preguiça de tantas lembranças. De tantas histórias.
Hoje eu simplesmente acordei cansada de saber que tantas coisas vão embora.

Hoje eu andei pensando. E, em cada passo, relembrei inúmeras coisas que se foram e levaram com elas tantas pessoas. Pensei em amigos intensos, em dias compartilhados. Pensei em encontros breves, mas que foram especiais. Senti saudades de alguns dias vividos, mesmo tendo total compreensão do porquê passaram. Hoje eu acordei me questionando. Questionando por que deixei tantas coisas passarem, tantas pessoas irem. Por um momento me culpei.

Sem dúvidas, hoje, eu acordei do avesso. Avesso de mim mesma, avesso do que construí. Ou que do que não se edificou. Acordei colidida, cheia de fiapos e linhas soltas.

Hoje eu acordei intrigada. E me intriga ser quem eu sou. Ou quem eu quero ser. Me intriga saber que passei para tantas pessoas e que não estacionei. Será que tive pressa? Pode ser.
Hoje eu acordei irritada! Irritada com a ideia de que sou lembrança, para tantos e tantas. E lembranças, apesar de serem especiais, correm o risco de serem esquecidas. E os esquecimentos podem representar tantas coisas!
Hoje eu acordei insatisfeita. E minha insatisfação pode ou não ter fundamento. Mas é tão minha!
Acordei insatisfeita com a necessidade de me conformar. E as conformidades são tantas, por toda a vida.
Hoje eu acordei terrivelmente insatisfeita com a desculpa de que ensinei muito, mesmo tendo ido embora.
Insatisfeita com meu não lugar. Com meu excesso ou com o meu doar.

Hoje eu acordei Insatisfeita com o passar. E, apesar de tudo, hoje eu acordei querendo. Querendo ser hoje. Ser atual. Ser agora. Hoje eu despertei com o desejo de acontecimentos demorados. Com o desejo de sentir a continuidade. Despertei com o desejo de ter parada. De saber onde ir. De saber quem encontrar.
Hoje, de fato, eu acordei com o desejo de ter olhares recíprocos. De sentir junto. Com qualquer pessoa, sincronizado.

Hoje eu pensei, como todos os dias.
Hoje eu senti, como todas as manhãs.
Hoje eu desejei, como em todas as tardes.
Hoje eu planejei, como em toda madrugada.
Hoje  eu acordei, assim, um tanto estranha.
E, de fato, hoje, eu estou assim, meio embaraçada.

domingo, julho 20, 2014

E da vida, eu não sei

E da vida não sei o que falar.
Não sei do que viver, nem como fazer.
Ousei uma dia cantar, apontar
Aconselhar, tentar.
Disseram que fiz certo,
hoje, tenho muito o que pensar.

Da vida a gente tira sorrisos, riso, ri
Faz gargalhar.
Por vezes sua prazer, ecoa paixão
Sente o medo, propaga coragem
Exala tristeza, vibra tensão.

Tem dias cinzas, estranhos, ocos
Opacos, claros, gelados.
Tem dias fortes, densos, confusos
intensos, tensos, de colisão.
Tem dias que a gente escorrega,
Arregala os olhos, esconde a feição
Chora escondido, finge mansidão.

O que ela (a vida) dá, a gente transforma, entorta
Tira daqui, coloca acolá
Retoma, toma, assopra, prova,
Compassa e despassa num piscar.
Respira o puro, devolve um penar.
Tem dias que são dias e bastam.
Há dias que são dias e sobram.

Com a vida a gente aprende, surpreende
Compreende, entende, finge aceitar.
Por propósito, sem o óbvio
Por querer ou por negar.
Com a vida a gente aprende,
sem buscar.

Na vida a gente sente, pede,
Arrepia, pira, sufoca, evoca,
Encosta, atira e quer saltar.
Na vida a gente ama e odeia
Sem almejar.
Na vida a gente é, deixa de ser
Busca sei la o que.

A vida tem ciclos, a vida tem voltas.
Tem dias, noites, estrelas, luar.
Antíteses, pronomes, fome,
pecados, predicados, verbos e sangrar.
A vida tem dor, tem bem, tem mal.
Tem busca, encontros, planos, saídas e vindas,
Arrependimentos e contentar.

Ela (a vida) presenteia, ateia, cutuca
Dá, retira, envolve, chove.
Tem segredos, tem além.
Tem desdém, tem amor.
Tem a, tem b, tem o juntar,
somar, subtrair, potencializar e dividir.
A vida tem surpresas.

Tem dias breves, tempo longo.
Noites intensas, frias, de amedrontar.
Também há loucuras, curas, milagres.
Há tanto, há muito,
há muro, pulo, o escalar.

Eu disse muito,
E não sabia o que dizer.
Eu senti muito,
E não sabia o que sentir.
Eu quis o mundo e não soube o que buscar.

Hoje eu ouso:
Não amou, quem não soube o que é mendigar.










domingo, julho 13, 2014

Agonia

O bom artista consegue transformar sua dor em arte. Transcende-se e como forma de aliviar o que lhe aflige, produz grandiosos feitos.
Não me vejo como artista, mas encontro em mim a estúpida necessidade de decifrar minha agonia. E toda agonia, por si só, condensa um tanto de dor e tem um Q de desamor.
Causa mal, faz doer, retira o equilíbrio, assombra os pensamentos e enfurece o coração.
Infelizmente lhe digo que, por diversas vezes na vida, passaremos por sensações como essa. E, sim, isso é péssimo e extremamente doloroso.
Viver dias agoniados é como viver dias sabendo o quanto desejará esquecê-los.
Viver dias agoniados é como assistir a um espetáculo dessincronizado.
É como acordar mais ou menos, passar horas mais ou menos, trabalhar mais ou menos, dormir desejando sonhar.
Sonhar mais ou menos, sorrir mais ou menos, sentir mais ou menos. Ligar o automático, fazer por fazer. Manipular a hora, acrescentar meias verdades ao tempo que sobrou.
Tentar guardar o amor.
Viver dias agoniados é tentar entender o que pouco se explica.
É tentar esquecer o que o foi bom, quando estas deveriam ser memórias eternas.
É deitar e sentir o corpo inquieto, acordar e desarmar todos os desejos. Fazer, fazer, fazer, fazer até encontrar outro sentido.
Acreditar no que parece improvável.
Hoje, meu coração está agoniado. Pulsa doído, bomba desilusão.
Desilusão do outro, desilusão do querer. Desilusão do sentir, desilusão do acompanhar.
Hoje, meu coração não sente a harmonia, sente-se congelado.
Congelamento do fervor, do furor.
Hoje, meu coração sente-se assaltado, violado, frágil e banido.
Banido do amor, banido do amar.
Minha agonia, hoje, é tão minha, no entanto, me foi imposta. Minha agonia, de hoje, não depende de mim.
Fui presenteada, e de surpresa!
Surpresa da dor, do chorar. Surpresa que sabota e faz penar.
Hoje, com pesar eu lhes digo: não posso amar!
Amar quem me mostrou o amor, amar quem me deu o amor.
Amar quem eu quero, amar quem me fez pulsar, quem prometeu me acompanhar.
Acompanhar na vida, no caminhar.
Hoje, eu simplesmente não posso. E o não poder me faz agonizar.









domingo, junho 22, 2014

Uma cilada

Como começar a escrever algo sobre o qual já cultivei algumas expectativas finais?
Tenho pra mim que nenhum texto é nascido no agora, mas todo e qualquer manuscrito é gerado por diversos poréns anteriores. Digo, ainda, que qualquer rascunho traz consigo a marca do que somos, do que pensamos e do que esperamos.
E é sobre a expectativa que me atrevo a falar. Sobre aquela que se atreve a entrar em todas nossas relações. Sobre aquela que nos prende a respiração e turva nosso olhar.
Meus olhos não alcançam alguém que viveu uma vida sem esperar, sem torcer, sem frustrar-se - ao menos uma vez. E estas são, sem dúvidas, experiências que doem e que marcam. Que afincam sentimentos e impulsionam tomada de decisões.
Mas ela volta, ela sempre volta. E nos enche de uma falsa e boa sensação, daquelas que faz o coração ficar cheio, pulsar mais rápido, que dá sorrisos de graça e, por tudo isso, causa uma tristeza exponencialmente maior.
É ela, a expectativa! Não me diga que não a conhece!
Me atrevo a jogar a culpa sobre ela, pois a mim é clara a mesma proporção que esta culpa me acomete.
Não existiriam expectativas se não idealizássemos, se não esperássemos, se não antecipássemos. Talvez ela seria menor se fôssemos menos apressados, menos adiantados, menos futuristas, mais presentes, mais contentes com o oferecido, menos felizes com o irreal.
E, talvez, a grande cilada da vida encontra-se aí: as expectativas são, claramente, a nossa tentativa de controlar o que não nos é controlável. Sejam elas boas ou ruins. Acompanhadas de borboletas  no estômago ou náuseas repulsantes.
E esta característica terrivelmente humana respinga em todos os nossos dias, nossos sonhos, nosso viver. Sofremos com a ausência do controle e, proporcionalmente, sofremos com a presença dele. É embriagante pensar em tudo isso, haja visto que esta também é uma forma de controlar todo este mistério. Não há como fugir! Estamos fadados a sermos humanos, acometidos de todas estas intempéries. Digo isto, eu que não me adoço com os ditos "fardos da vida", mas devo aqui dizer: todos esperamos, o bem ou o mal.
E as expectativas não nascem em árvores, não florescem nos jardins, nem tampouco compramos em supermercados.
Elas são constructos nossos, são fundamentadas no que vivemos e sentimos... e choramos... e sorrimos... e desejamos... e amamos.
São nossas, tão nossas, quanto nossas vidas. E, por serem tão nossas, que as enchemos de verdade, quando não são, assim, tão verdadeiras. Enchemos de verdade o que pouco se fundamenta, pouco se evidencia, pouco se sustenta.
O pouco se torna suficiente para embasar o que é desejado. O pouco se torna muito. O pouco se torna claro. O pouco se torna grande e encorpado. O pouco basta. O pouco aflora. O pouco dá o pontapé da expectativa. O pouco é a verdade.
Mas também existe o muito. Existem as expectativas embasadas, que são fundamentalmente previsíveis. Bem justificadas. E essas... Ah! Essas doem mais, a despeito do quanto podemos mensurar a dor. Essas doem com rigor. Doem com verdade. Doem contra a lógica. Doem contra o sensato. Doem simplesmente.
Não há como fugir, nem como negar: expectativas são boas quando são correspondidas. E a cada correspondência, alimentamos mais um batalhão de outras delas. E não posso negar o quanto são boas as sensações quando a espera é por algo apetitivo. Impossível negar o quanto estas sensações bastam por si só. O quanto elas nos completam, em suas verdades. E quando correspondidas, que bom... que bem!
Quando contrariadas, tornam-se ardidas, pontiagudas... nos deixam aquém.
É preciso atentar-se.
É preciso ponderar-se.
É preciso inundar-se.
Contentar-se.
Realizar-se... do que é real.. do que é atual.. do que é hoje... do que é agora.
A facilidade passa longe deste exercício, visto que a expectativa, assim como para com o outro, está para com a gente também. A expectativa está em querer ser o que não construímos. Está em receber proporcionalmente ao que oferecemos. Está em amar e querer ser amado. Está, inclusive, em esperar e querer ser esperado.
A expectativa está no planejamento do dia dia seguinte, está no cardápio para o jantar, na roupa comprada para a festa.
A expectativa está aqui. Agora!
Ela completa, torna cheio o que pode estar vazio. Inunda o que já era completo. Inquieta, agoniza, desfoca, embaralha, tapa os olhos.
Não sei como excluí-la. Nem sei se devemos. Mas hora ou outra, aprendemos como frustrá-las. Não todas, mas uma, ao menos. E aí a dor é menor.. é dor esquivada, talvez não sentida.
E o restante?
Eu espero. Pois não vejo uma vida sem esperar...



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